eu gosto da sensação de pegar a estrada, falei, gosto de como o carro se move rapidamente pelo asfalto e de como as paisagens ao redor são sempre bonitas, grandes campos, verdes, abertos, às vezes um mar aparecendo, umas casinhas no meio do nada, no meio do morro, gosto das músicas no rádio, da hora de trocar o CD, escolher um som legal, acho que um rock and roll ou um reggaezinho raiz são as melhores trilhas sonoras pra essas horas, é meio estranho agora pegar a estrada como passageiro, você dirigindo, parece sempre que vamos bater, sair da pista, sua velocidade é muito alta nas curvas, um pouco devagar demais para a reta, os radares parecem sempre inspirados pra nos deixar um presente em forma de multa de oitenta e cinco reais e quatro pontos na carteira, e me sinto mais desconfortável ainda por causa do silêncio, então é por isso que demorei tanto pra escolher o cd, sabe, aí eu fico cantando baixinho ou batendo com a mão no painel, um batuque um tanto nervoso pra evitar o constrangimento, eu odeio esse silêncio entre nós, odeio quando te olho, te vejo olhar fixo na estrada, mãos no volante, prestando atenção como se fosse o mais difícil dos caminhos mesmo que a gente tenha só uma grande reta pela frente, sabe, eu percebo que no fundo você só quer evitar o encontro do teu olhar com o meu, suas espiadelas nervosas pelo retrovisor como se estivesse sendo perseguida e uma ou outra palavra sobre o trânsito, eu, realmente, não consigo evitar de fixar meus olhos nos teus, que vigiam o asfalto, não posso não ficar olhando pra tua mão que segura o volante com força desnecessária, eu, sabe, só queria não ter esse desconforto, do silêncio, da sensação intermitente de que o carro vai descer algum morro, da agonia longa que durava o tempo de uma música ruim no rádio, da indecisão na escolha do próximo cd, da busca por teus olhos, do batuque sem ritmo, do cansaço da viagem, da preguiça de ler as placas que indicam lugares para onde não vamos e distâncias que não parecem diminuir, do medo dos radares, do vidro aberto que faz o vento vir em ataques ferozes contra meu rosto num naipe de road movie, a gente em uma viagem inexplicável, então, eu sinto que é tudo tão desnecessário que me dói fisicamente, a cabeça pede uma aspirina e eu olho para os postos de gasolina como uma salvação, quero parar, é, começo a sentir isso, que preciso parar, abastecer, levantar, esticar as pernas, fumar um cigarro lentamente, sem pressa alguma, tragadas curtas, fumaça cancerígena, uma coca cola gelada e a consulta ao mapa, os números girando no mostrador da bomba de combusível e eu te chamando pra sentar um pouco na loja de conveniência e tentarmos resolver as coisas, nesse momento, eu acho, livres da estrada, da pressão do vento, do velocímetro, do barulho do motor, mesmo longe dos clássicos do reggae, tudo poderia ser um tanto mais fácil, e, não me leve a mal, eu já disse que gosto disso tudo, da estrada, do som, mas eu acho que só precisava sentar contigo numa mesa de dois lugares, frente a frente, como nos programas de entrevista da televisão e conversar, te contar sobre todas as coisas e quem sabe o resto de nossa viagem, nossa longa viagem, fosse melhor, fosse como nos velhos tempos.
terminei meu monólogo ao mesmo tempo em que soavam os últimos acordes do baixo nos auto falantes, no instante em que uma placa daquelas verdes de estrada anunciava mais cento e cinquenta e dois quilômetros até nosso destino, no mesmo momento em que teu olhar ainda fixo na estrada me indicava que a distância entre nós era muito maior do que simples quilometragem.
5 comments:
Ficou muito bom o texto, Ternura. Mas usa mais o ponto final, pombas!
heheheheh
Abraços!
Interessantissimo como a mesma viagem, o mesmo caminho, a mesma galera, os mesmos costumes, os mesmos hábitos sujos, as mesmas manias podem resultar em visões tão completamente diferentes de um mesmo caminho.
incrível.
belo texto, Ter.
A falta de "ponto" cansou, mas deu "a cara" pro texto. Ficou bem legal!!!
essa distância que confunde e entristece, segue para a certeza de novos horizontes.
lindo ter.
e tudo precisa ser assim, veloz demais. sem ponto final.
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