o carro adentrava a marginal e éramos recepcionados em são paulo por uma chuva característica e um princípio de trânsito lento. a noite, ao menos, era bonita, estrelada. dei pra reparar nisso, atualmente, você viu? numa daquelas fases de perceber acordes novos em velhas canções. a luz dos carros, aquela luz vermelha das lanternas traseiras, preenchia toda a avenida. achei bonito. o marcos trocou de rádio e suspirou.
"é, estamos aqui. sempre voltando".
"é. essa sensação de voltar pra casa. sempre".
"ah, eu odeio. o pior de qualquer viagem é a volta pra casa".
"depende do que te espera por lá, não é?"
sem resposta, voltei a atenção pra pista. não podia esperar muito mais. eu mesmo não entendia o sentido daquilo. afinal, o que me esperava? estávamos ali, na pista, onde as placas indicavam todos os caminhos, mas eu não conseguiria dizer qual era a minha verdadeira rota dali pra frente. acho que era isso, como estar em uma viagem sem mapa, sem sinais.
"jornadas como essas são as que rendem melhor, sabe, te levam a caminhos novos e surpresas", você diria, daquele seu jeito que está sempre certo. o meu problema é que eu só queria voltar pela mesma trilha e era incapaz de encontrar a entrada. afinal, o caminho não é reto. e eu sempre, sempre me perdia nas curvas.
"trabalha amanhã?", o marcos perguntou, aproveitando um silêncio de fim de música.
"sim, estamos aí de volta à labuta".
"é isso aí. o que mais você queria? é isso o que tá aí esperando pela gente".
"você tem vontade de às vezes só fugir né? férias do mundo aqui?"
"isso".
concordei com a cabeça em um gesto lento. peguei uma das saídas laterais e estávamos fora da marginal, rumo ao lar doce lar. agora sem trânsito. pensei na ideia do marcos. férias de tudo, não? sem destino, como um navio largado no mar, sendo levado, podendo chegar ou não a algum lugar. mas lembrei que ainda havia âncoras. sim, eu ainda queria voltar. mas, de alguma forma, estava cada vez mais longe da estrada certa. e às vezes pensava mesmo que nunca tinha a encontrado.
"ei, presta atenção. acho que você errou a saída, pô".
"é. acho que sim".
