Tuesday, November 24, 2009

numa viagem sem mapas

o carro adentrava a marginal e éramos recepcionados em são paulo por uma chuva característica e um princípio de trânsito lento. a noite, ao menos, era bonita, estrelada. dei pra reparar nisso, atualmente, você viu? numa daquelas fases de perceber acordes novos em velhas canções. a luz dos carros, aquela luz vermelha das lanternas traseiras, preenchia toda a avenida. achei bonito. o marcos trocou de rádio e suspirou.

"é, estamos aqui. sempre voltando".
"é. essa sensação de voltar pra casa. sempre".
"ah, eu odeio. o pior de qualquer viagem é a volta pra casa".
"depende do que te espera por lá, não é?"

sem resposta, voltei a atenção pra pista. não podia esperar muito mais. eu mesmo não entendia o sentido daquilo. afinal, o que me esperava? estávamos ali, na pista, onde as placas indicavam todos os caminhos, mas eu não conseguiria dizer qual era a minha verdadeira rota dali pra frente. acho que era isso, como estar em uma viagem sem mapa, sem sinais.

"jornadas como essas são as que rendem melhor, sabe, te levam a caminhos novos e surpresas", você diria, daquele seu jeito que está sempre certo. o meu problema é que eu só queria voltar pela mesma trilha e era incapaz de encontrar a entrada. afinal, o caminho não é reto. e eu sempre, sempre me perdia nas curvas.

"trabalha amanhã?", o marcos perguntou, aproveitando um silêncio de fim de música.
"sim, estamos aí de volta à labuta".
"é isso aí. o que mais você queria? é isso o que tá aí esperando pela gente".
"você tem vontade de às vezes só fugir né? férias do mundo aqui?"
"isso".

concordei com a cabeça em um gesto lento. peguei uma das saídas laterais e estávamos fora da marginal, rumo ao lar doce lar. agora sem trânsito. pensei na ideia do marcos. férias de tudo, não? sem destino, como um navio largado no mar, sendo levado, podendo chegar ou não a algum lugar. mas lembrei que ainda havia âncoras. sim, eu ainda queria voltar. mas, de alguma forma, estava cada vez mais longe da estrada certa. e às vezes pensava mesmo que nunca tinha a encontrado.

"ei, presta atenção. acho que você errou a saída, pô".
"é. acho que sim".


Sunday, November 15, 2009

sem direção

começava mais uma chuva enquanto outra música chegava ao fim no cd player. no fim do dia era novamente como se tudo fosse desabar. passei para a terceira marcha e olhei para o lado. ela procurava entre meus cds alguma coisa que pudesse agradar. segui por mais alguns metros antes de avistar o farol, vermelho.

"mais uma vez, fechado pra mim".

"para de drama. para de morrer por qualquer coisa".

desviei o olhar. eu sabia mas não queria saber. eu sentia, mas não queria aquele peso, não queria aquela pedrada. acabei olhando, claro, de solsaio, disfarçado, usando um tanto o retrovisor. aqueles olhos tão, tão, sei lá, aqueles olhos dela não tinham nem se desviado do estojo onde procuravam por alguma boa música, os dedos passando os discos um por um. sem levantar a vista. engatei a primeira marcha e voltei a atenção novamente para a rua. o farol ainda vermelho - e parecia de repente o mais longo e mais intenso dos vermelhos do mundo.

"você já se sentiu como se te tirassem o horizonte?"

"ah, sim. mas não sabia que algum dia você tinha traçado qualquer caminho certo".

"é. não. você tá certa. acho que quis tanto seguir os horizontes perdidos que me perdi de mim mesmo".

o semáforo abriu. saí lentamente. uma quadra, duas, três. segunda, terceira marcha.

"você tá vendo aquela placa?"

"sim", respondi. o texto branco no fundo verde apontava a última saída para a avenida principal da cidade. acabávamos de passar por ela, devagar.

"então. passamos. um pouco. talvez uns cem metros. mas passamos. e você não pode dar ré aqui na avenida".

"nunca tinha pensado nas coisas assim. é tudo tão simples, né?"

ela não respondeu. fiquei em silêncio, também. não tinha realmente pensado em nada. andava recusando os próprios neurônios, mergulhado em minhas músicas, nos documentos do trabalho, compromissos pré-fixados, cervejas na promoção, calçadas lotadas, metrôs infernais, bons livros e filmes.

os amigos passavam e cumprimentavam, estendiam a mão e perguntavam amistosos "tudo bem?" e eu respondia que sim, que tudo bem, tudo bem, tudo ótimo, e as coisas iam adiante, tudo bem, por que não estaria, só por que ela não levantou os olhos de uma caixa de cds de qualidade duvidosa, só porque havia acabado de me dar um tiro e mais um, sem ao menos engatilhar uma arma? já houve quem sobreviveu a vinte, trinta disparos e depois pôde dizer que tudo bem, tudo bem, por que eu não poderia, pensei, enquanto armava um sorriso amarelo.

quarta marcha, mas sem correr. passamos por uma placa de retorno. o silêncio do rádio sem música dominava tudo. dei seta. o barulho do dispositivo enchia o carro. a luz piscava. à direita.

"merda. você não entende".

"o quê?", perguntei. não quis dizer que, na verdade, eu talvez entendesse ou nunca tivesse entendido. mas de qualquer forma minha única certeza é que não havia jamais existido um meio termo. eu, o cara das evasivas, o maior mestre do "sei lá" e da dispersão, sabia que na vida existia um sim e um não. apenas.

"acho que não entendi, mesmo".

"a vida não é uma estrada. desculpa. não tem retorno".

desliguei a seta e pisei no acelerador.

"talvez seja. acho que só preciso encontrar o caminho de volta pra casa, sem mapas, sem atalhos".

engatei a quinta marcha com a certeza de que entrava, definitivamente, no ponto morto.


Sunday, November 08, 2009

você não aprendeu ainda?

a primeira vez em que me mataram foi um pouco estranha. o pior é que lembro de cada detalhe. cada palavra. cada momento em que a dor surgia, cada punhalada no coração. na segunda não foi muito diferente. houve, aí, alguma euforia perdida na noite, alguma enganação própria. claro. eu não queria assumir e não diria nunca para mim mesmo que era a segunda vez em que deixava que a morte tomasse minha alma assim, de assombro, chegando sem convite. não, nem isso, chegando disfarçada de bons agouros.

é estranho morrer. dói bastante na hora- diria que é algo como ser atropelado por um bonde, se eu pudesse comparar. mas o pior talvez seja mesmo depois. você se sente vazio. é como se você tivesse...morrido. não é, afinal? eu ia até falar que é como fazer uma longa viagem, pegar uma estrada e de repente se perder no meio do caminho, sem ter chegado ao destino, sem poder voltar pra casa, sem nada, acabou, sabe?

não lembro direito como foi minha primeira morte. tá, mentira, lembro de cada palavra, e já disse isso. mas acho que daquela vez foi pior a dor na hora, mesmo, a porrada. murro no nariz, acho. sangra, dói. é isso ou algo semelhante.

doeu, mas depois acho que não foi tão vazio. acho. agora a morte foi previsível - se eu tivesse algum pingo de consciência poderia ter até evitado, mas a vida é sempre assim, não é? uma corrida atrás da morte? então fui me deixando levar rumo ao desfiladeiro, os passos contados. embora eu sempre achasse que poderia parar ou mesmo acreditando sem motivos que alguma mão se estenderia.

aí o que acontece? a gente cai. a vida tem dessas coisas, afinal. a vida tem muitas mortes.

Monday, November 02, 2009

sem ponto final.

"eu sempre tive mil problemas e um deles era mesmo com o término, era do tipo de cara que chega mesmo a pular os epílogos dos livros e do que, quando escreve, evita o ponto final, pode-se perceber, tenho ódio eterno pelos pontos porque eles são como um tiro e matam, acabam com a vida e pode ser de qualquer jeito, pode ser de repente e esses são os piores tipos, daqu.

eles que nem esperam terminar uma frase, uma palavra, nada, chegam com violência bruta, pronto, acabou, não chora, olha pra frente, enxuga as lágrimas que começam a nascer nos olhos, no meio da rua, noite de quinta, vento frio soprando e você vai chorar, não, não faça isso, ainda há tanto pela frente e nem havia nada ali atrás, você não percebeu, todos sabiam, mas você não, acreditava estar no caminho certo enquanto só ia de encontro a uma colisão, como andar pela linha do trem, uma hora ele vem e te arrebenta, mas você não pode dizer que não sabia o que ia acontecer, todos sempre sabemos, acho, sempre podemos saber, mas é bom ser cego, é bom ser burro, qualquer ignorância é bem vinda nessas horas, qualquer mentira ou engano, porque tudo o que queremos é seguir adiante com a farsa, estamos sempre numa ilusão, você não acha?"

Saturday, October 24, 2009

auto-nostalgia

o fábio não fumava, então, quando vi que ele estava ali, sentado do lado de fora do bar, na calçada, cigarro entre os dedos - e, merda, ele nem sabia mesmo segurar aquela porra ou até tragar - e tossindo levemente com a fumaça, não consegui deixar de ficar um pouco triste por pensar que era uma das cenas mais patéticas da minha vida. o pior é que eu até entendia o que estava acontecendo - de alguma forma eu conseguia entender um pouco as coisas de outras pessoas, embora não deixasse transparecer e elas mesmas achassem que eu estava sempre errado, de forma que eu falava um 'deixa pra lá' e deixava que pensassem o que quisessem. eu entendia e era exatamente isso que me deixava um pouco melancólico e parecia decretar o fim prematuro daquela noite de sábado.

uns três anos antes talvez fosse eu ali e alguma vez devo mesmo ter protagonizado cenas iguais. e isso me lembra como estou sempre em busca de algo e tudo é desculpa. o emprego, a correria, o erro, o perdão, o fora, o acidente, o atraso, a chance, a garota, tudo é só desculpa, porque a grande busca é - e sempre foi - a busca por mim mesmo. eu não sentia saudades e tinha mesmo vergonha de lembrar de dias em que eu, como fábio, me deixara levar pelas coisas sem reação e me perdera em delírios românticos a lá terceira geração. mas sinto que perdi um pouco por aí, que me deixei ficar pela poeira das ruas, pelos obstáculos, e fui seguindo em frente como se nada mais importasse. tudo importa. a vida tem que seguir, a vida sempre tem que seguir, mas algumas coisas vão sempre ficar pra trás.

saudades dos meus melhores dias, dos melhores refrões. no fundo, a gente sempre espera um bis.

Monday, October 19, 2009

en passant

saí de casa novamente em meio à chuva - em que dia não choveu neste mês, em que dia não choveu no ano, na vida, penso - sem ter algum destino certo. era estranho até, eu, sempre tão planos-marcados, estar assim. é fase, só pode ser, digo pra mim mesmo, enquanto sinto os pingos molhados dessa noite de quinta molhando minha blusa nova, meu cabelo. então passo a mão pra tentar arrumar o penteado, arrumar tudo assim, simples, passou a mão e pronto, você não pensa assim, você algum dia não quis tudo assim, pergunto, sim, acho que sim, respondo, aí sigo descendo a rua e pensando que não tenho rumo certo. mas em cinco minutos estarei ali no bar do léo esperando algum amigo que esteja de passagem, eles sempre estão por ali, eles sempre estão de passagem - todo mundo sempre está de passagem.

Tuesday, October 13, 2009

sobre freud, noites e cachaça barata

na última noite tive um sonho estranho. acordei com a cabeça doendo e anunciando uma ressaca homérica, um acúmulo não só de alcool que me deixava os neurônios pesados e apertava as têmporas como um torturador chinês. lembro da cena final, a gente subindo a rua augusta sem pressa, uma roda de amigos e de repente aparecia um carro, correndo. no meio da pista tinha um daqueles cones usados pra parar o trânsito, mas o cara ignorou. seguiu direto, atropelando o negócio. um baque surdo e o carro seguiu em frente, batendo então em outro veículo, um monza verde - como consigo lembrar desse detalhe? - e ainda assim não parando. mas parecendo, sim, acelerar, para finalmente se enfiar e parar debaixo de um ônibus. todo mundo parou, olhou por alguns segundos. e então continuamos a seguir nosso caminho rumo à estação consolação - às vezes soltando um último olhar para ver os destroços. levantei ainda meio zonzo e fui até a cozinha. abri a geladeira e fiquei ali parado, fitando a luz fria. tomei lentamente um copo de água gelada. não que eu já tivesse lido alguma coisa sobre interpretação dos sonhos ou mesmo pensado nisso. mas aquilo tudo me parecia perturbador demais. familiar demais. a diferença é que eu não andava precisando de um carro e obstáculos fixos para me autodestruir.