Sunday, November 08, 2009

você não aprendeu ainda?

a primeira vez em que me mataram foi um pouco estranha. o pior é que lembro de cada detalhe. cada palavra. cada momento em que a dor surgia, cada punhalada no coração. na segunda não foi muito diferente. houve, aí, alguma euforia perdida na noite, alguma enganação própria. claro. eu não queria assumir e não diria nunca para mim mesmo que era a segunda vez em que deixava que a morte tomasse minha alma assim, de assombro, chegando sem convite. não, nem isso, chegando disfarçada de bons agouros.

é estranho morrer. dói bastante na hora- diria que é algo como ser atropelado por um bonde, se eu pudesse comparar. mas o pior talvez seja mesmo depois. você se sente vazio. é como se você tivesse...morrido. não é, afinal? eu ia até falar que é como fazer uma longa viagem, pegar uma estrada e de repente se perder no meio do caminho, sem ter chegado ao destino, sem poder voltar pra casa, sem nada, acabou, sabe?

não lembro direito como foi minha primeira morte. tá, mentira, lembro de cada palavra, e já disse isso. mas acho que daquela vez foi pior a dor na hora, mesmo, a porrada. murro no nariz, acho. sangra, dói. é isso ou algo semelhante.

doeu, mas depois acho que não foi tão vazio. acho. agora a morte foi previsível - se eu tivesse algum pingo de consciência poderia ter até evitado, mas a vida é sempre assim, não é? uma corrida atrás da morte? então fui me deixando levar rumo ao desfiladeiro, os passos contados. embora eu sempre achasse que poderia parar ou mesmo acreditando sem motivos que alguma mão se estenderia.

aí o que acontece? a gente cai. a vida tem dessas coisas, afinal. a vida tem muitas mortes.

Monday, November 02, 2009

sem ponto final.

"eu sempre tive mil problemas e um deles era mesmo com o término, era do tipo de cara que chega mesmo a pular os epílogos dos livros e do que, quando escreve, evita o ponto final, pode-se perceber, tenho ódio eterno pelos pontos porque eles são como um tiro e matam, acabam com a vida e pode ser de qualquer jeito, pode ser de repente e esses são os piores tipos, daqu.

eles que nem esperam terminar uma frase, uma palavra, nada, chegam com violência bruta, pronto, acabou, não chora, olha pra frente, enxuga as lágrimas que começam a nascer nos olhos, no meio da rua, noite de quinta, vento frio soprando e você vai chorar, não, não faça isso, ainda há tanto pela frente e nem havia nada ali atrás, você não percebeu, todos sabiam, mas você não, acreditava estar no caminho certo enquanto só ia de encontro a uma colisão, como andar pela linha do trem, uma hora ele vem e te arrebenta, mas você não pode dizer que não sabia o que ia acontecer, todos sempre sabemos, acho, sempre podemos saber, mas é bom ser cego, é bom ser burro, qualquer ignorância é bem vinda nessas horas, qualquer mentira ou engano, porque tudo o que queremos é seguir adiante com a farsa, estamos sempre numa ilusão, você não acha?"

Saturday, October 24, 2009

auto-nostalgia

o fábio não fumava, então, quando vi que ele estava ali, sentado do lado de fora do bar, na calçada, cigarro entre os dedos - e, merda, ele nem sabia mesmo segurar aquela porra ou até tragar - e tossindo levemente com a fumaça, não consegui deixar de ficar um pouco triste por pensar que era uma das cenas mais patéticas da minha vida. o pior é que eu até entendia o que estava acontecendo - de alguma forma eu conseguia entender um pouco as coisas de outras pessoas, embora não deixasse transparecer e elas mesmas achassem que eu estava sempre errado, de forma que eu falava um 'deixa pra lá' e deixava que pensassem o que quisessem. eu entendia e era exatamente isso que me deixava um pouco melancólico e parecia decretar o fim prematuro daquela noite de sábado.

uns três anos antes talvez fosse eu ali e alguma vez devo mesmo ter protagonizado cenas iguais. e isso me lembra como estou sempre em busca de algo e tudo é desculpa. o emprego, a correria, o erro, o perdão, o fora, o acidente, o atraso, a chance, a garota, tudo é só desculpa, porque a grande busca é - e sempre foi - a busca por mim mesmo. eu não sentia saudades e tinha mesmo vergonha de lembrar de dias em que eu, como fábio, me deixara levar pelas coisas sem reação e me perdera em delírios românticos a lá terceira geração. mas sinto que perdi um pouco por aí, que me deixei ficar pela poeira das ruas, pelos obstáculos, e fui seguindo em frente como se nada mais importasse. tudo importa. a vida tem que seguir, a vida sempre tem que seguir, mas algumas coisas vão sempre ficar pra trás.

saudades dos meus melhores dias, dos melhores refrões. no fundo, a gente sempre espera um bis.

Monday, October 19, 2009

en passant

saí de casa novamente em meio à chuva - em que dia não choveu neste mês, em que dia não choveu no ano, na vida, penso - sem ter algum destino certo. era estranho até, eu, sempre tão planos-marcados, estar assim. é fase, só pode ser, digo pra mim mesmo, enquanto sinto os pingos molhados dessa noite de quinta molhando minha blusa nova, meu cabelo. então passo a mão pra tentar arrumar o penteado, arrumar tudo assim, simples, passou a mão e pronto, você não pensa assim, você algum dia não quis tudo assim, pergunto, sim, acho que sim, respondo, aí sigo descendo a rua e pensando que não tenho rumo certo. mas em cinco minutos estarei ali no bar do léo esperando algum amigo que esteja de passagem, eles sempre estão por ali, eles sempre estão de passagem - todo mundo sempre está de passagem.

Tuesday, October 13, 2009

sobre freud, noites e cachaça barata

na última noite tive um sonho estranho. acordei com a cabeça doendo e anunciando uma ressaca homérica, um acúmulo não só de alcool que me deixava os neurônios pesados e apertava as têmporas como um torturador chinês. lembro da cena final, a gente subindo a rua augusta sem pressa, uma roda de amigos e de repente aparecia um carro, correndo. no meio da pista tinha um daqueles cones usados pra parar o trânsito, mas o cara ignorou. seguiu direto, atropelando o negócio. um baque surdo e o carro seguiu em frente, batendo então em outro veículo, um monza verde - como consigo lembrar desse detalhe? - e ainda assim não parando. mas parecendo, sim, acelerar, para finalmente se enfiar e parar debaixo de um ônibus. todo mundo parou, olhou por alguns segundos. e então continuamos a seguir nosso caminho rumo à estação consolação - às vezes soltando um último olhar para ver os destroços. levantei ainda meio zonzo e fui até a cozinha. abri a geladeira e fiquei ali parado, fitando a luz fria. tomei lentamente um copo de água gelada. não que eu já tivesse lido alguma coisa sobre interpretação dos sonhos ou mesmo pensado nisso. mas aquilo tudo me parecia perturbador demais. familiar demais. a diferença é que eu não andava precisando de um carro e obstáculos fixos para me autodestruir.


Tuesday, October 06, 2009

sem diagnósticos prontos

"é só o trabalho me consumindo, chegando todo dia tarde, passando horas a fio em ônibus lotados, metrôs empacados, trens com problemas elétricos atrasando na plataforma, enchentes pelo caminho, trânsito, faróis vermelhos todos possíveis, atrasos, filas intermináveis para depois chegar e ter pilhas de relatórios, documentos pra ler, pra digitar, análises, números, números, números, contas que não fecham, broncas do chefe, horas extras, atrasos no pagamento".

"tá bom, acho que é algo também relacionado aos amigos, os velhos amigos, que vão sumindo, nosso caminhos se separando, trabalho, faculdade, um começa a namorar, outro viaja, muda de casa, de emprego, de jeito, de gosto, aquele some, um outro aparece pra sumir de novo, os dias passam e no fim de repente parece que ninguém se importa com ninguém, que todos vão seguindo seus caminhos em paralelo e apenas às vezes os pontos se encontram para um 'olá tudo bem como vai precisamos marcar de tomar uma cerveja mas é claro a gente vê beleza abraço'".

"ou então o acúmulo de todas as pequenas coisas, sabe, a multa de trânsito, a conta vencida, a briga com o vizinho, o trabalho da faculdade atrasado, a mãe preocupada, o tio doente, aquele filme ruim no cinema, o compromisso furado, a chuva no fim de semana, a viagem que não deu certo, o pneu furado, a comida estragada, a gripe da última sexta-feira".

"ok. eu sei. talvez seja um pouco de tudo isso. mas não é nada disso".


Sunday, October 04, 2009

simples assim

o problema do henrique é que ele sempre fazia com que eu me sentisse um lixo. o pior é que ele costumava estar certo. ele não sabia mentir, então jogava as coisas assim, na cara, porrada, sem preparação, pedrada, foda-se. o problema do henrique era eu.